O nosso consumo de música mudou nas últimas 2 décadas, com o avanço da tecnologia, a chegada da internet rápida nos anos 2000, o formato MP3, o iPod e seus genéricos (eu tive um zen creative de 6GB), que passado alguns anos virou um iPod nano, esse era portátil e você podia caminhar com ele no bolso. Uma maravilha.
Mas acho que a grande inovação, aconteceu de fato com o nascimento do YouTube. De lá para os serviços de streaming que usamos hoje foi um piscar de olhos.
Tudo isso já foi debatido, como a arte é comercializada, como apoiar os artistas independentes, como a indústria da música vai se sustentar, mas esse não é o objetivo desse post.
Queria falar sobre uma coisa bem particular, acerca de como consumimos música. Não lembro se me deparei com essa discussão num artigo, ou se escutei num podcast, as vezes a memória é falha (me perdoem), mas existe algo muito íntimo no ato de escutar música. Algo que sofreu uma mudança significativa ao longo dos anos.
Sempre que experimentamos uma sensação de prazer, como ouvir música, por exemplo, produzimos em nossos HDs internos uma memória afetiva.
Todos nós que crescemos nos anos 90, começo dos anos 2000, lembramos da sensação de ir numa loja de CDs, podia ser uma lojinha de bairro (que sempre tinha um dono que dava pitaco no que você escolhia), ou numa mega store da vida, com suas centenas de opções de todos os gêneros e para todos os gostos.
O que acontecia na sequência, era mais ou menos o seguinte: você comprava o cd, depois de escolher minuciosamente, olhar a capa, contra capa, checar a lista de músicas, escutar algumas faixas, afinal de contas era uma decisão importante, esse CD iria te acompanhar pelos próximos meses. Feita a escolha, você voltava para sua casa com a ansiedade a mil, segurando a sua nova aquisição, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo (e era), chegando em casa, corria para o aparelho de som ou discman (o com sistema antishcok era o mais desejado) e escutava esse novo mundo de sensações a ser explorado.
Podemos dizer que você criava um vínculo com aquele álbum, você lembrava quando comprou ele (ou se ganhou de presente). Você lembrava de analisar o encarte, ficar feliz se ele tinha as letras das músicas (principalmente para artistas que cantavam em inglês), você ficava horas olhando a arte da capa, lia até as descrições em fonte pequena, geralmente na última página do encarte (meu Deus, mais um disco com esse tal de Rick Rubin nos créditos, você pensava).
Hoje em dia continuamos consumindo música e descobrindo novos sons, mas a experiência é sempre a mesma, você descobre um artista sentado em frente ao seu computador, fazendo uma esteira na academia, ou talvez com a ajuda de um algoritmo bem otimizado (o Spotify é realmente danado, não é mesmo?).
Podem me chamar de romântico, ou só de chato mesmo, mas algo se perdeu nessa experiência toda.
A volta do vinil tem um pouco a ver com isso, com a experiência de se ouvir música, com o tátil, com o olfato, com você fisicamente segurar um pedaço de música, um pedaço da história, uma obra de arte. Talvez tenha até um pouco a ver com fetichismo, em algum nível, mas isso é conversa para outra hora.
Hoje eu só queria falar sobre esse disco, uma coletânea do Fats Domino. Um dos pioneiros do Rock N’ Roll, e esse disco, assim como tantos outros, também tem uma história. Comprei ele num flea market (feirinha de rua), em Amsterdã, lembro que eu e minha namorada na época, fomos até tal evento, para experimentar um stroopwafle (famoso doce holandês), e ficamos surpresos de ver uma barraquinha de discos, no meio de tantos outros comerciantes vendendo: antiguidades, roupas, artesanatos e petiscos em geral.
Se você observar na foto, o disco tem três etiquetas, com três preços diferentes marcados: €22,90, €9,50 e €7. Como bom brasileiro, e jovem viajando com a grana curta, tentei barganhar com o vendedor, o valor do disco. Depois de muita insistência finalmente consegui um desconto, paguei exatos 5 euros nele. Dois euros de diferença! Que pechincha, eu pensei! Analisando em retrospecto, no câmbio de hoje, dois euros realmente é uma pequena fortuna.
De qualquer maneira, voltei para o hostel feliz com a minha nova aquisição, e depois de terminada a viagem, atravessei o atlântico junto com o Fats Domino (e mais uma dúzia de outros discos), que hoje eu tirei para escutar, limpar, olhar as capas e apreciar. Tem dias que a vida faz total sentido.